sábado, 11 de abril de 2009

Terra Cearense.

- Boa terra do meu Ceará,
Onde está a fresca folhagem
Que devia cobrir o esqueleto
De tuas ásperas caatingas?
Para onde foram as verdes franças
Que deviam encher os braços descarnados
De tuas arvores que gemem
E se contorcem de dor
Sob o látego de fogo
Dos ventos e dos redemoinhos?

Porventura negou-se a natureza
O esplendor de verdura e de beleza
Em que vivem as outras regiões,
Orgulhosas de prados e florestas,
Ébrias de amor, perpetuamente em festas?

- Não, meu nobre cantor.
A natureza deu-me ainda muito mais:
Deu-me frescor e deu-me doçura;
Deu água de cristal para as minhas árvores
E nelas colocou frutos de ouro e frutos de rubi
Correndo mel, vazando aroma em ondas ao redor.

Eu era o palácio de Beleza,
A obra-prima, talvez, da Natureza,
Talvez o Paraíso.
E então na verde primavera,
Quando vaidosa ostentava
A floração da acácia e da bonina
E derramava nos cabelos de azeviche
O perfume dos castos amores,
Não havia quem me visse
E de encantado não caísse
Aos meus pés de joelhos.

E foi por isso que me vendo assim, um dia,
Começou o próprio sol a namorar comigo.
E encantado comigo,
Não tirou nunca mais os seus olhos de mim
E ainda, para estar sempre me vendo,
Não consentiu mais
Que as nuvens, como outrora, me cobrissem
E nem, de ciumento, me acariciassem
Com as abundantes e freqüentes chuvas
De outrora.
E nunca, nunca mais deixou de me fitar...

Eu era frágil demais
Para o calor
De seu amor:
Ele devia namorar a lua,
Ou as estrelas que são sóis como ele.
Mas amou-me tanto,
E tanto e tanto se ocupou comigo,
Que até esqueceu as regiões polares
Só para poder me olhar.

E foi daí que os pólos começaram a gelar,
E eu a decair e a definhar.
As minhas árvores murcharam,
As minhas fontes secaram,
Os meus filhos sofreram,
E a flor do meu encanto original
Murchou, caiu, secou, estorricou, pulverizou-se.
E o vento apanhou esse punhado de pó,
Soprou e o levou ao Criador
Que fizera de mim o altar do seu amor.

Fiquei pobre e desolada.
No entanto,
A cegueira do sol era tão grande,
Que nunca mais tirou o olhar do meu semblante.
E foi por isso que eu fiquei assim:
Saudade só,
Saudade, mais do que beleza.
Tenho saudade dos frondosos bosques

Em cujos ramos floridos
Gorjeavam passarinhos.
Hoje, no meio do sertão maninho,
Vejo com mágoa os tristes mocozais
Em cujos pedregulhos frouxos ouço a cada instante
A venerosa cascavel que silva e que chocalha.
Outrora cada prado e cada fonte
Eram ninhos de amor
Donde se evolavam idílios meigos,
E onde passeavam declamando
Os poemas do beijo
Ledos casais de namorados.

Hoje, pelas várzeas poeirentas,
Pelas estradas sangrentas
Que me recortam,
Com fome e sede, escaveirados,
Quase nus,
De vez em quando vão meus pobres filhos,
Pobres flagelados.

Contudo,
Meu povo é heróico e não maldiz.
Ainda há sorrisos, e se ama aqui...
Choveu que seja, ergue altiva a cerviz
E em desafios e toadas,
Ou cantando ao violão modinhas arrastadas
É o povo mais feliz.

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