quarta-feira, 29 de abril de 2009

A um poeta.

Ó meu poeta, ó meu diamante negro,
Conta-me ao ouvido
As histórias das águas profundas.
Transmite-me, à tua luz de encanto e de magia,
A história das regiões
Que dormem no seio das águas abissais,
A história das regiões que te viram nascer;
Das gupiaras e das pepitas que assistiram
À gestação multimilenar
Do teu carbono puro...

E canta para os meus ouvidos
Famintos de música:
A tua voz é como as vibrações de um cristal.
E brilha para os meus olhos
Sequiosos de policromias:
A tua luz é como perfume de âmbar
Na atmosfera morna dum deserto...

Ó meu diamante negro,
És a luz que as estrelas derramaram
No coração das águas;
A cristalização da luz
Que astros todos irradiaram
Sobre o espelho dos nosso rios caudalosos.
Luz que as entranhas do abismo iam guardando
Com ânsia inominável de avarento.
Paraces um bloco de espessa noite,
Mas és um bloco espesso
De relâmpagos concentrados,
Uma concentração de raios, negra de impaciência,
Pedindo espaços,
Reclamando a amplidão do céu profundo
Para brilhar,
Para deslumbrar,
E abalar o alicerce do mundo!

Ó meu diamante negro,
Canta, ao clarão original de tua luz,
Os grandes pensamentos dos rios
Que vêm de longe;
O desespero das cascatas
Que se quebram de encontro às rochas;
A delicadeza da espuma
Que desdobra os mistérios da luz
No encanto e na magia do arco-íris.
Canta as grandes idéias:
Elas rebatam
Quando são grandes por si mesmas,
Canta as idéias microscópicas:
Elas embriagam
Quando assim nos aparecem na simplicidade nativa.

Canta,
Ó meu diamante negro,
Uma canção
Como o reflexo de um espelho plano,
O reflexo do céu
Nas águas de um lago tranqüilo...
Derrama tua alma sobre o mundo
Como um vaso entornado
Deixa esvair-se a essência de que estava cheio.
Quero ouvir-te falar
Da beleza universal que te possui,
Como nos falariam de ternura
As nossas mães,
Se ainda pudéssemos dormir em seu regaço...

Canta,
Para delícia dos meus ouvidos,
Uma canção
Como o reflexo de um espelho plano...
Assim,
Ó meu diamante negro,
Canta
Sempre e sempre assim.

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